O cheiro de acarajé misturou-se ao som de atabaques na Largo do Pelourinho na noite de sexta-feira passada. Era o terceiro dia do Festival dos Encontros, uma iniciativa que reuniu artistas baianos, mestres de capoeira, grupos de dança afro e feirantes de artesanato em cinco noites consecutivas. Para quem conhece o centro histórico nos meses mais calmos — quando o turismo internacional dá uma trégua —, a cena parecia quase irreconhecível.
"Fazia tempo que eu não via tanta gente daqui, morador de verdade, circulando depois das oito", disse Dona Cida, que vende bijuterias há vinte anos na Rua das Laranjeiras. "O turista é bem-vindo, claro. Mas quando o baiano ocupa o espaço, a festa ganha outra alma."
Cinco dias de encontros
O festival nasceu de uma parceria entre produtores culturais independentes, a associação de comerciantes do Pelourinho e apoio da prefeitura. A proposta era simples na teoria: programação gratuita, horários estendidos e ênfase em artistas que normalmente não aparecem nos grandes palcos do verão. Na prática, exigiu meses de articulação — licenças, segurança, som, limpeza — e um exército de voluntários.
Cada noite teve um eixo temático. Na abertura, homenagem aos mestres da capoeira angola. No segundo dia, rodas de samba de roda com grupos de cidades do recôncavo. Na quarta, noite das mulheres — com DJs, poetisas e bailarinas. Na quinta, encontro de gerações, juntando veteranos do ilê aiyê com coletivos de rap periférico. O encerramento foi uma jam session que começou às nove da noite e só terminou quando o sol ameaçou aparecer.
"Não é só entretenimento. É afirmação de que a cultura negra baiana não é decoração para postagem — é economia, é memória, é futuro", afirmou a curadora Janaína Oliveira, uma das idealizadoras do evento.
Quem subiu ao palco — e quem ficou na rua
Além dos nomes mais conhecidos, o festival reservou espaço para artistas em início de carreira. O grupo Tambores de Cachoeira, de Santo Amaro, fez sua primeira apresentação no Pelourinho para um público de mais de duas mil pessoas. A cantora Júlia, 19 anos, moradora de Periperi, emocionou a plateia com um repertório que misturava ijexá e trap.
Nos becos laterais, feirantes montaram barracas com cerâmica, renda e esculturas em madeira. Muitos relataram vendas acima da média de um mês inteiro em apenas dois dias. "Não é só o dinheiro", explicou o artesão Moacir. "É ver o trabalho sendo valorizado por quem entende a história por trás de cada peça."
A programação infantil também ganhou destaque. Oficinas de pintura, contação de histórias e mini-aulas de dança ocuparam a Praça Teresa Batista durante as tardes. Pais que costumam evitar o centro histórico à noite — por receio de violência ou por falta de opções — levaram crianças pela primeira vez em anos.
Economia criativa e os números por trás da festa
Segundo estimativa preliminar da associação de comerciantes, o festival movimentou cerca de R$ 1,8 milhão em vendas diretas e serviços nos cinco dias. Hotéis de médio porte no centro reportaram ocupação quinze pontos acima da média de junho. Restaurantes que fechavam cedo estenderam o horário. Motoristas de aplicativo notaram pico de corridas a partir das dezoito horas.
Os organizadores enfatizam que o impacto vai além do faturamento imediato. "Criamos uma agenda que pode voltar no segundo semestre", disse o produtor cultural André Luiz. "Eventos pontuais não sustentam ninguém. O que sustenta é regularidade com qualidade."
A prefeitura, por sua vez, destacou o papel do festival na revitalização do centro histórico — tema recorrente em gestões anteriores, nem sempre com resultados duradouros. Moradores ouvidos pelo ReceitasBR foram cautelosos: aplaudiram a iniciativa, mas cobraram manutenção de iluminação, segurança e limpeza para além dos dias de evento.
O que vem depois da última nota
Quando a música parou, o Pelourinho voltou ao seu ritmo habitual — mais calmo, mais esparso. A pergunta que fica é se o festival deixará legado ou se será mais um episódio bonito na memória coletiva. Os sinais são mistos.
Por um lado, surgiram conversas sobre uma cooperativa de artesãos para vender online o que antes dependia só do turista presencial. Por outro, artistas independentes continuam enfrentando burocracia para conseguir espaço e financiamento. "Cinco dias não apagam doze meses de dificuldade", resumiu o rapper BNegão, que participou da noite de encontro de gerações.
O que ninguém contesta é o efeito imediato: Salvador mostrou, mais uma vez, que sua cultura é motor — não enfeite. E que quando a cidade abre espaço para seus artistas ocuparem a rua, a praça responde. Com dança, com drum, com acarajé quente e com aquela energia que só o pelourinho, na Bahia de todos os santos, sabe oferecer.